sexta-feira, 4 de abril de 2025

 

maravilhas

despencam

da letramorfose veloz

dos maia alcoólicos.

Wladimiras

Maia cósmicos designs

                        palavrilhas

                        iluminuras

                                               nuvens de calças

                                               agudas virilhas.

 

Admiras

cúbicos concertos

                        vídeo-textos

                        hologravuras

                                               concretagens.

 

ATENÇÃO POETAS NINJA

O concretismo

com cretinos

                        desatina!

 

 

Alex Sakai – Juquiá - 1990

 

✦ Poesia Comentada #2

✦ Introdução

O poema que trago hoje é uma provocação visual e filosófica: “Insaciedade dos poetas mortos-vivos” não é só um título — é um manifesto.

Aqui, palavra, imagem e conceito se fundem numa crítica cortante à estagnação literária — ao “poeta morto” que ainda respira, mas não vibra.

É um grito de alerta e também um epitáfio. Mas ao contrário dos epitáfios, este aqui desperta em vez de encerrar.

Abaixo, a leitura interpretativa de um poema que exige mais do que olhos: exige nervo.


✦ Análise Literária: Insaciedade dos poetas mortos-vivos

1. O título como poema

“Insaciedade” é uma palavra poderosa — fala de uma fome que não cessa, um apetite essencial, quase espiritual. A insaciedade aqui é do verbo, da inspiração, da autenticidade.

“Mortos-vivos” é o paradoxo: poetas ativos em corpo, mas inertes em criação; ou talvez esquecidos, mas ainda ardendo no subsolo da linguagem.

2. Uma crítica tipográfica

A escolha visual do título — com diferentes fontes, contrastes e famílias tipográficas — nos entrega uma poesia visual de impacto.
A confusão gráfica expressa o próprio desconforto estético que o poema denuncia: os poetas que se repetem, se esvaziam, se imitam, como zumbis do verbo.

3. Entre a denúncia e o apelo

Esse poema é um soco sem levantar a voz.
Ele denuncia o adormecimento da palavra criadora, mas também apela por resgate.
Há um desejo pulsante de ver poesia viva de novo, e não apenas discursos formatados em forma de poema.

4. A vitalidade da revolta

Nomear a morte criativa é o primeiro passo para revivê-la.
O poeta não quer apenas provocar — ele quer ressuscitar o verbo, o risco, o sangue, a arte viva.
E, acima de tudo, a coragem de ser insaciável na criação.


✦ Conclusão

“Insaciedade dos poetas mortos-vivos” não é um lamento: é um clarim.
Um convite à reinvenção. Um espelho que só mostra o reflexo de quem ainda tem fome poética.

💬 E você, leitor? Escreve com fogo ou apenas repete fórmulas mortas?
Comente, compartilhe sua leitura — e escreva hoje com a intensidade de quem precisa viver em cada palavra.

 

 Poesia Comentada #1

Navegante: a travessia pela linguagem

por Alex Sakai – Tokyo, 1994

Hoje compartilho um poema escrito em Tokyo, em 1994, quando o silêncio e a língua estrangeira me obrigaram a mergulhar ainda mais fundo na linguagem como travessia interior.

Em “Navegante”, exploro o fazer poético como uma jornada viva pelas águas do verbo — um percurso por sons, sentidos e signos.

Abaixo, o poema e, logo depois, uma análise crítica para quem desejar ir além da superfície.


Navegante

Navegar pela poesia
É navegar em rio revolto
  Com uma canoa de relâmpagos
  Cruzo monossílabos tônicos.

As estrelas da palavra
No trilho da ilha
São as filhas
  Lavradas no fio do abracadabra

A canoa voa a correnteza:

Vogais lisas
 Ásperas algas consonantais
  Águas de fonemas
   Corredeiras de sintaxe
    Cascatas lexicais.

Em meio à miragem das línguas
Joga a proa da canoa
Q ressoa
 A constelação de loas
Por um mar de olhos semióticos.

Molha a boca de significados
Soa a voz dos pirotécnicos
Ecôo
  Com uma catedral de signos.


✦ Poesia Comentada: Navegante

1. Um poema sobre o poema

Navegante é uma obra metapoética — um poema que fala sobre o fazer poético. O eu lírico se apresenta como um barqueiro que atravessa o rio revolto da linguagem. Aqui, a poesia é viagem, é desafio, é corpo vivo.

“Com uma canoa de relâmpagos / Cruzo monossílabos tônicos”

Essa imagem traz o poeta como aquele que desafia a tormenta com uma embarcação feita de inspiração (relâmpagos), enfrentando a musicalidade tensa dos monossílabos — palavras curtas, sonoras, firmes.


2. O abracadabra da linguagem

“As estrelas da palavra […] Lavradas no fio do abracadabra”

As palavras são tratadas como feitiço, alquimia, filha da noite e da mente. O uso da palavra “abracadabra” resgata a dimensão mágica do verbo: o poder de criar, transformar, curar.


3. A geografia fonética da criação

A sequência de imagens que envolve vogais, fonemas, sintaxe e léxico transforma a linguagem em um cenário físico e sonoro:

“Vogais lisas / Ásperas algas consonantais / Águas de fonemas / Corredeiras de sintaxe / Cascatas lexicais”

Essa seção é um passeio visual e auditivo pelo corpo da linguagem. Aqui o poeta brinca como um artesão do som, revelando o que há de orgânico e selvagem no ato de escrever.


4. Um mar de signos

“Por um mar de olhos semióticos”

O verso mais ousado do poema. O mar olha de volta — é feito de olhos que são signos. Estamos imersos na semiótica viva, onde cada palavra, cada olhar, cada silêncio é um significado em potencial.


5. A epifania final

“Ecôo / Com uma catedral de signos.”

No clímax, o poeta se dissolve e se eleva: ele é a linguagem, é o templo da expressão. A palavra “catedral” traz reverência, monumentalidade. Aqui, o eco não é vazio — é ressonância sagrada.


✦ Conclusão

“Navegante” é um poema sobre a arte de escrever — mas também sobre a arte de existir através da linguagem. Um convite a todos que já se sentiram à deriva, mas encontraram nas palavras um norte.

💬 E você? Já navegou por rios revoltos de linguagem?
O que achou do poema? Deixe seu comentário abaixo — poesia viva é a que continua em outras vozes.


terça-feira, 30 de janeiro de 2024

sábado, 30 de abril de 2022

 

    


58                   

Sentado aqui na em meio a floresta amazônica

Na América do Sul, sinto sob minhas unhas,

Em cada dente,

Dentro de cada veia

A profundidade do azul.

A maturidade que o tempo inexoravelmente traz

Embala meus sonhos

Não mais sonhos vãos feitos de ego

Não vãos cegos das fendas obscuras da cidade

Luz da realidade

Veloz

              cidade

do espírito que me mora

Suave carícia da consciência Q me namora

Aroma fugás das eras do mar imenso da memória

Q amor

             tece

                        a dor de dantes

suprime o rímel lacrimejante

dos olhos viajantes

                                       de rimas

    risos

      rios

de vento e poemas.

Havemos de ser mais do que palavras

                                        E pensamentos

Silêncios e lamentos

Vozes d’alma

    Fina calma

                        Da flor Q brota

       Da lama

Amá-la é amalgamá-la

além do bem e do mal.

Lavá-la em lívida cal

                                   Limpando o caos.

Os olhos acesos nos gritos lancinantes do medo

São infames ritos

Dos aflitos.

Vê-los aquece o sol do desvelo em seu giro

Limpando o vírus

                             Q miro

                                 mero

                                    mito

Q viro

E varo

        Como tetos de vidro.

A calma da tarde repousa suave

A nave Q parte renova silente

Ave Q voa retorna sonora

                                                                                  A Vida se vive vibrante e tranquila.

  


Alex Sakai                                         

13022021

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O dragão da maldade contra o Santo Guerreiro

 


O dragão da maldade contra o Santo Guerreiro

 

Nesse vale de sombras

Se for para seguir alguém

Siga ninguém.

 

Nessa terra de trevas

Se for para fazer o bem

não olhe a quem.

 

Teu sorriso é o que eles temem

Ídolos de pés de barro

Pequenos ditadores

Retóricos aduladores.

 

Na hora do bom combate

A justa tem preferência

Pelo companheiro leal

Ombro a ombro no embate

Ante zumbis do irreal.

 

As garras da maldade

Nunca hão de tocar

O jovem guerreiro justo

E o velho bardo medieval

Com seus agudos lancinantes

Pondo sob as patas do rocinante

Os subjulgados do mal.

 

Porque além da injustiça

Aos pés da árvore Druida

Ecoa o regato da esperança

As araras aladas da floresta

São testemunhas da aliança

Que nos conduzem a vitória

Com os passos puros das crianças.

 

sábado, 4 de dezembro de 2021

os travares das ostras


os travares das ostras

são a nota mestra

com Q mostram

silentes sob os mastros

a solitária 

                madrepérola

de uma sinfonia

                        sem maestro



Alex Sakai

São Lourenço 

1985


Escrevi este poema na praia de São Lourenço em 1985.

Ao passear pela  praia, durante a tarde, ouvi o ruído das ostras grudadas no mastro de um velho barco naufragado. Saudando o pôr-do-sol.

O som era surdo. Consonantal trac trac trac. 

Procurei reproduzir sonoramente o som das sinfonias das ostras ao entardecer neste poema melopaico, como dizia Ezra Pound.

Creio Q o resultado foi satisfatório. Eu aprecio este poema, espero Q os leitores apreciem também.

Anos depois realizei, com meus parcos recursos e conhecimentos, este pequeno vídeo, cuja música, dodecafônica foi composta pelo Maestro Lincoln.

Infelizmente não possuo a gravação de seu piano dodecafônico com papel alumínio, para mostrar a vocês. Era muito lindo.

Demorei mais alguns anos para publicar. Sou rápido na produção, mas  muito lento com as publicações rsrsrsr.



sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

A Bailarina

 


A BAILARINA

 

 

 

A bailarina

Numa bolha de ilusão

Dança sem platéia

 

O descompasso da fuga

O descortinar da vida

O medo da estréia

 

São empecilhos maiores

Do Q o nó

Das sapatilhas

 

Q se desatam na vaia vazia

Da sala vazia

Quando não se dança a vera coreografia

 

Nos gestos desritimados

Na ânsia desesperada

No desacordo com o maestro

 

A bailarina

Hesitando o salto

Chora na coxia

 

E apesar do esforço da produção

A astúcia do empresário

A benevolência da crítica

 

Com mágoa dos espectadores

Com imposições à orquestra

Com restrições sutis

À ordem do programa

 

Resoluta

Em sua torre de marfim

 

A bailarina

Numa bolha de ilusão

Dança sem platéia.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

A tradução da canção

 



Traduzir, como diriam os concretistas é trair o autor. Não sendo tão rigoroso, mas ao mesmo tempo buscando trazer para nossa compreensão, as formas e imagens de outro lado mundo, as palavras signo, os ritmos exóticos à nossa língua mãe. E, acima de tudo, a sensibilidade profunda e sutil, da raça nipônica.

Os poetas japoneses sempre demonstraram em seus haikus, wakas e tankas essa maneira sutil de demonstrar os sentimentos mais profundos e nobres que a alma do país do sol nascente nos legou.

A lenda da princesa Orihime com o pastor Hikoboshi remonta milênios, perdida entre a proto-história japonesa. È uma força que sustenta um dos pilares da cultura. Origem do Tanabata Matsuri (Festival de Tanabata), cuja história é conhecida por todas as crianças do Japão. E na sétima noite do sétimo mês é comemorado há séculos.

A história narra a aventura da princesa Orihime-Sama, a princesa tecelã. Filha do Rei do céu, que estava ainda terminando a construção do universo, então precisava da exímia habilidade da Princesa para tecer as neblinas do outono, a névoa da manhã, as dobras das galáxias, decorando o firmamento como cortinas diáfanas de luz penduradas entre os planetas.

O Pai, ao ver a filha exausta por tanto trabalho, resolveu dar um dia de folga para que ela pudesse folgar pelo amenogawa, o rio de estrelas, conhecido por nós pelo nome de via láctea.

Lá a princesinha tecelã conhece o pastor de gado Hikoboshi e logo se apaixona por ele. Os dois então se esquecem do tempo e se divertem juntos chapinhando o rio de estrelas.

O Rei do céu então furioso com a irresponsabilidade da filha vai buscá-la e ela retorna ao palácio. O Rei usando de seus poderes aumenta o rio de estrelas que de um pequeno riacho, se transforma em um rio caudaloso, impossível de ser transposto. Ficando a princesa e o pastor em lados opostos.

Mas a princesa de tão triste, não consegue mais tecer. E passa os dias chorando. Suas lágrimas transbordam e caem na terra como um dilúvio. O rei aflito com a situação da filha lhe diz:

_ Minha filha volte a tecer. Se você trabalhar bem, prometo que na sétima noite do sétimo mês, uma vez por ano eu deixo que você volte a se encontrar com o pastor de gado.

Ao ouvir as palavras do pai a princesa se alegrou e voltou a tecer como antes. E uma vez por ano, conforme o prometido mil pássaros formam uma ponte sobre o rio de estrelas, com suas asas, para que a princesa possa atravessar o rio de estrelas e se encontrar com seu pastor. A história deu origem ao festival de Tanabata que é comemorado pelos japoneses e seus descendentes na sétima noite do sétimo mês, pelo calendário lunar. Para nós ocidentais, devido a usarmos o calendário solar as datas são móveis. A história se reporta ainda ao simbolismo da estrela Veja e da estrela Altair que são de galáxias diferentes, mas que uma vez por ano se encontram próximas.

A história se tornou muito popular no país do sol nascente e há uma linda canção infantil que fala da princesa.

Como disse, a sensibilidade sutil dos nipônicos fazem da canção de roda, um lindo poema.

Eu procurei traduzi-lo para nossa língua, mas confesso que não é nada fácil. O original em japonês diz:

Sasa no ha sara-sara

Ohoshi-sama kira-kira

Kin gin sunago

Literalmente quer dizer:

Grandes folhas de bamboo murmuram

As folhas presas balançam,

Estrela deusa brilha

Ouro e prata em grãos de areia.

 

A imagem folhas presas não é boa para expressar o movimento e o ruído das folhas de bambu sopradas pelo vento, (Sara-sara).

Então usando de um pouco de licença poética e de recursos de sibilar os “esses” em assonâncias para expressar o ruído das folhas traduzi.

 

As folhas de bambu sussurram

E suspensas oscilam.

A princesa estrela suave cintila

Nos grãos de  areia de ouro e prata.

 

Alex Sakai- PVH abril 2013

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

VÁCUO QUÂNTICO

 


 

Não sou ovelha

Orelha velha que rapta o som original.

Too Emotional !

Já nadei contra a corrente.

Nadeguei entreventres.

Por hora quero o som do agora,

Na freqüência do infinito.

Impérios sempre falham.

No fio da navalha

A dor canalha já era.

Trago uma constelação de códigos

e no centro do migo o amigo é o que vibro.

Não sou ovelha.

Neste exato momento

O universo me oferece N possibilidades.

Ando mesmo sem espaço.

Meu tempo é já!

 

                                   Alex Sakai

                                                       PVH 300512

 

 

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

 


SINGULAR SEGUNDA PESSOA


A poeira do século

Q cheiraste

abrira-te a porta do tempo

Em Q de ti 

Brotaste

Teu

Bolor

De flor lamento.


Lento lento

pelo vento

Do rio de pensamentos

em Q te acorrentaste

sob o peso do cimento

Das lágrimas 

Q fingiste

sulcar tua face triste.


O trem da tarde

parte

E leva embora a dor

Q tu choraste.

A luz da lua

cintila mais Q o refletor

Q desligaste.

Luminosa 

A poeira de estrelas


Salpica suave


O Amor

Q tu vibraste.


Só o Amor

Sempre  Amor

Puro e belo

Amor.



Alex Sakai

PVH 19/11/2021


terça-feira, 16 de novembro de 2021

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Nos Ritmos do DJ ALMA


Nos Ritmos do DJ ALMA
Para a sonoridade
da alma brasileira






Tomjobinar  joãogilbertei
Hermeteando Smetacs
                De  GilBenzen

Olodúnicas  baticumbandas
Djavançando
          A bumbadança

Para se escalar Gismontis
Primeiro tem Q se Cae-
                Tano

pixinguinhando  tudo
Nara-se em Galbethania
Q na Miltonteia se exclama:

Araci acuda
                               Q Ari Caimi!

Alex Sakai
Sanvi  1995
MALBA TAHAN O GRANDE CALCULISTA CARIOCA


“Em nome de Allah, Clemente e Misericordioso!
Louvado seja o Onipotente, Criador de todos Os mundos!
A misericórdia é em Deus o atributo supremo!
Nós Te adoramos, Senhor, e imploramos a Tua divina assistência!
Conduze-nos pelo caminho certo! Pelo caminho daqueles que são
esclarecidos e abençoados por Ti!”
Versos de abertura do Alcorão.

Malba Tahan sempre exerceu sobre mim um fascínio. Primeiro pela simplicidade e elegância de seu estilo, segundo pela profundidade e transversalidade de suas letras. Terceiro e, creio eu o mais importante, pelo conteúdo edificante e formador que traz sua pedagogia e seus humildes ensinamentos, que só os verdadeiramente grandes, conseguem inserir nas almas sedentas de aprendizado, (Allah o tenha em sua infinita misericórdia!).


Lembro-me bem de meus pequenos olhos infantis desvendando os mistérios do oriente com seus vizires, odaliscas, cheiques, califas, ulemás e calculistas. Que de presto busquei introduzir no seio de minha família, sendo “O Homem que calculava” livro importante na literatura caseira. Anos depois, tive convicção da utilidade de seus escritos, que teve o poder de resolver um grave problema de aprendizado de matemática que se abatera sobre meu lar, onde minha filha tinha dificuldade de aprendizado da ciência mais filosófica e abstrata de todas. Então constatei, na prática, o poder de transformação de sua obra, ensinando a ver a matemática, os cálculos, as fórmulas sob um prisma, mais abrangente e refinado, que acabava por derrubar todas as barreiras e desenvolver o gosto pelo aprendizado da ciência e orientava a mente num caminho de evolução balizado pelo rigor e pela abstração caminhando de mãos dadas, num equilíbrio áureo, (Só Allah é mais sábio).
Tais fatos me fizeram pensar: Por que Malba Tahan não era ensinado nos cursos regulares de literatura? Por que o ostracismo de um escritor com obra de tamanha envergadura e proficuidade, onde podemos ver escritos sobre a história da matemática, filosofia, compilação de lendas, etimologia, ética, tradição, esoterismo, espiritualidade, respeito à diversidade cultural, história da cultura oriental, jogos mentais, numerologia, simbólica entre outros não menos importantes; tudo sob uma prosa simples, mas não simplória, elegante, mas não pedante, educativa, mas não maçante e que tem o poder de orientar mentes e personalidades em formação com o poder dos arquétipos em seus aspectos positivos e edificantes.
Por que um autor de 115 obras, de alto valor literário, sensibilidade e sabedoria, caiu no esquecimento da mídia e da crítica, mas sobrevive vivo na memória do povo? Sendo citado de geração em geração e resistindo incólume ao julgamento do tempo, trazendo em seu bojo a contemporaneidade em seu aspecto transversal de conteúdos e de formas?
São questões que vêm tomando corpo e acabam por se tornar urgentes na investigação que ora lhes apresento e espero, com isso, contribuir para a elucidação desse mistério e quiçá, com a reparação de um erro e de uma injustiça sem par em nossas letras. Um escritor universal em língua portuguesa não é coisa que se encontre aos montes. Um escritor transversal e multicultural no século vinte, tampouco. Especialmente se tomarmos o ponto de vista da literatura brasileira, marginalizada há muito tempo por sua particularização e isolamento provocado pela própria língua, de acordo com alguns.
Qual seria, pois, a função da literatura? Educar? Entreter? Incentivar a ampliação dos valores culturais, morais e éticos? Colaborar com a formação edificante da juventude? Romper preconceitos criados por ignorância e choques culturais? Aprofundar questões existenciais? Preservar valores e tradições?
Então, por que uma obra que traz todos esses requisitos é varrida para baixo do tapete editorial, e não se fala mais nisso?
Resolvi então, instigar os espíritos norteados pelo juízo a buscarem a justiça nesse caso que não deve ser oculto pelas areias da ingratidão nem pela neblina do passado, (Que Allah, clemente e misericordioso, ilumine meus passos nessa árdua jornada).



Ilusão de ótica: a figura acima apresenta círculos concêntricos
embora pareça uma espiral.

BIOGRAFIA DE JÚLIO CÉSAR DE MELLO E SOUZA




Filho de professores, em uma família de nove filhos, Júlio César nasceu
no Rio de Janeiro, no dia 06 de maio de 1895. Teve uma infância tranqüila em Queluz, mais tarde descritas pelo irmão escritor João Batista, no livro Os meninos de Queluz.
Júlio César ingressou no Colégio Militar do Rio de Janeiro em 1906, onde permaneceu até 1909 quando se transferiu para o Colégio Pedro II.
Para aumentar sua renda, uma vez que a mesada paterna era parca, Júlio vendia redações, como ele mesmo dizia em suas memórias, aos “marginais da cola, vadios da pior marca”, sua primeira venda foi de uma redação sob o tema “Esperança”, proposto por seu professor, a partir de então passou a escrever sob encomenda e vender esperanças, ódios, saudades...
Anos depois, o professor Silva Ramos, seu ex-professor e sua vítima que o apresentou a Raul Pederneiras, como mercador de redações. Pederneiras o repreendeu:
- Você vendia redações de ódios e de esperanças! Despreze o ódio. Continue, sempre que for possível a vender a esperança pela vida. Adote uma profissão poética: Mercador de Esperança, que na venda da esperança ganha o Comprador e muito mais o Vendedor.
Assim, tomando a repreensão como lema Júlio César seguiu sua vida sendo um mercador de esperanças, vendendo sonhos e formando seres com as fabulosas fábulas orientais que jorravam de sua pena carioca como um oásis, nas áridas plagas da literatura.
Mesmo não sendo um excelente aluno, Júlio sempre foi vocacionado ao magistério e depois de formado em engenharia civil e na escola normal, iniciou sua carreira de professor no colégio D. Pedro II, de onde seguiu por inúmeras instituições como um desbravador da pedagogia nacional, trazendo sempre inovações e criatividade na arte de ensinar, além de um profundo amor pelos alunos. Em seu depoimento no Museu da Imagem e do Som, Júlio César admitiu não dar zeros: Por que dar zeros, se há tantos números? Dar zero é uma tolice.
Para o professor Lauro de Oliveira Lima, “Malba Tahan era o “showman” da pedagogia. Popularizou a matemática em livros deliciosos, usados ainda hoje. Suas aulas de didática eram um verdadeiro espetáculo. Creio que ficará pouco de sua didática, pois sua didática era ele próprio. Acho que seu nome ficará como o contador de lindas histórias e como lembrança de um homem cheio de generosidade”.

NASCE MALBA TAHAN

Entre 1918 e 1925, Júlio César estudou árabe, leu o Talmude e o Corão, estudou História e Geografia do Oriente e, combinado com Irineu Marinho, do jornal A NOITE, criou o personagem Malba Tahan. O jornal começou a publicação dos CONTOS DE MALBA TAHAN com a biografia do suposto autor.
O nome Tahan foi tirado do sobrenome de uma de suas alunas (Maria Zachsuk Tahan) e significa moleiro. O nome Malba significaria oásis. A mudança de nome tornou-o tão famoso que o presidente Getúlio Vargas autorizou-o a usar o nome Malba Tahan na sua cédula de identidade.
Júlio César só saiu do Brasil para visitar Lisboa, Montevidéu e Buenos Aires: jamais esteve no Oriente, jamais viu um deserto! O que torna sua obra ainda mais valiosa do ponto de vista da criatividade, pois ele descreve com precisão as cidades, os costumes, as feições, a religiosidade, e até os ruídos das ruas de Bagdá ou Meca podem ser ouvidos por entre os ventos que varrem as areias dos desertos de Malba Tahan na Obra de Júlio César. Um caso único em nossa literatura. Mais que isso, os escritos de Malba Tahan, encerram além das fabulosas imagens das mil e uma noites, preceitos de envergadura moral universais, filosofia profunda, cálculos abismais, que têm o poder de transmitir mais do que o amor pela matemática, o amor pelo conhecimento e onde o ponto exato de conexão entre as letras e os números, transformam-se em sabedoria, tudo dentro da mais sublime simplicidade que abarca desde os corações pueris dos infantes até os corações experimentados na têmpera da vida, dos anciãos.

Ali Yezzid Izz-Eddin Ibn-Salin Hank Malba Tahan, famoso escritor árabe, descendente de tradicional família muçulmana, nasceu no dia 6 de maio de 1885, na aldeia de Muzalit, nas proximidades da antiga cidade de Meca. Fez os seus primeiros estudos no Cairo, e, mais tarde, transportou-se para Constantinopla, onde concluiu oficialmente o seu curso de ciências sociais. Datam dessa época os seus primeiros trabalhos literários, que foram publicados, em idioma turco, em diversos jornais e revistas.
A convite de seu amigo, o Emir Abd el-Azziz ben Ibrahim, exerceu Malba Tahan, durante vários anos, o cargo de queimaçã1 na cidade de El-Medina, tendo desempenhado as suas funções administrativas com rara inteligência e habilidade. Conseguiu, mais de uma vez evitar graves incidentes entre peregrinos e as autoridades locais; e procurou sempre dispensar valiosa e desinteressada proteção aos estrangeiros ilustres que visitavam os lugares sagrados do Islã.
Pela morte de seu pai, em 1912, recebeu Malta Tahan2 valiosa herança; abandonou, então, o cargo que exercia em El-Medina e iniciou uma longa viagem através de várias partes do mundo. Atravessou a China, visitou o Japão, percorreu a Rússia e grande parte da Índia, observando os costumes e estudando as tradições dos diferentes povos. Entre as suas obras mais notáveis, citam-se as seguintes: Roba-el-Khali, Al-Samir, Sama Ullah, Maktub. Lendas do Deserto, Mártires da Armênia e muitas outras.
Através do pseudônimo de Malba Tahan, Júlio César escreveu 56 obras, sendo a mais famosa “O Homem que calculava”, onde o grande calculista persa desvenda os mistérios dos números, resolvendo intrincados problemas e levando a virtude e a sabedoria por onde passa, sempre envolto em uma aura de sublime humildade e reverência à sabedoria. Em suas páginas de ouro, mais do que simples problemas matemáticos podemos encontrar lendas dos mais afamados vultos que a humanidade produziu como Platão, Sócrates, Pitágoras, Arquimedes, e os grandes matemáticos e sábios árabes e hindus desconhecidos então em terras tupiniquins. “O homem que calculava” foi traduzido para o alemão, o inglês, nos Estados Unidos e na Inglaterra, o Italiano, o espanhol e o catalão. O Homem que Calculava é indicado como livro paradidático em vários países, citado na Revista Book Report e em várias publicações do gênero e vendeu mais de dois milhões de exemplares além de ter sido premiada pela academia brasileira de letras.
Malba Tahan ocupou a cadeira número 8 da Academia Pernambucana de Letras, e é nome de escola no Rio de Janeiro. A homenagem mais importante foi prestada pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro instituindo o dia do matemático na data de seu nascimento, dia 06 de maio.
Por todas as suas virtudes merecia o grande calculista escritor mais atenção quando de seu centenáario em 1995, onde apenas a revista super interessante e a revista nova escola se lembraram de homenageá-lo. Não que ele fosse afeito a esses confetes, uma vez que ao morrer deixou explícito que deveria ser enterrado em caixão de terceira classe sem coroas ou flores, mesmo na derradeira hora, seu espírito humilde de dar valor ao que realmente tem valor se manifestaria.
Para encerrar este breve escrito, homenageio o grande Ulemá3 Malba Tahan com a apresentação de um de seus problemas matemáticos como forma de reconhecimento por sua sabedoria. Aos que quiserem conhecer mais sobre esse grande escritor iniciem pelo homem que calculava e tenho certeza que uma chama imortal de sabedoria há de tomar-lhes o espírito de assalto como a manifestação de poder de um grande djin.4

Quantos cubos aparecem no desenho 6 ou 7? Uallah!

PROBLEMA DOS 35 CAMELOS




Dois homens viajavam pelo deserto, em um camelo, quando encontraram três irmãos brigando por uma herança de 35 camelos. O mais velho precisava receber a metade da herança, isto é, 17,5 camelos. O segundo deveria receber um terço, ou seja, 11 camelos e dois terços. O terceiro, por fim, deveria ficar com um nono de tudo, ou seja, 3 camelos e oito nonos. Como seria feito, sendo que nenhum queria ficar com o prejuízo?
Chegou-se à seguinte conclusão: Foi posto o camelo dos dois homens junto aos outros, e então ficaram com 36 camelos no total e não mais 35. A divisão feita foi a seguinte: o mais velho recebeu 18 camelos (metade de 36), o do meio, 12 (um terço), e o mais moço ficou com 4 (um nono do total). Todos eles saíram satisfeitos, pois ganharam mais do que o previsto. Mas... 18+12+4=34, e não 36, como havia antes. Com isso os dois homens ainda conseguiram mais um camelo para viajar cada um em um.
Para concluir uma dedicatória constante do livro “Minha Vida Querida”. Espero ter podido, com essas humildes palavras, fazer jus a grande obra do velho Mestre.
QUE ALLAH O TENHA EM SUA GLÓRIA GRANDE ULEMÁ MALBA TAHAN!

1- Prefeito.
2- Malba ou Malbe é o nome de uma pequena povoação que fica no sul da Arábia; Tahan significa “o moleiro”. A tradução do nome seria, portanto: “O moleiro de Malba”.
3- Grande sábio.
4- Gênio
5- Por Deus



Escuta, beduína, escuta!
Quando abandonaste a minha tenda
Tomei do cala e escrevi
O teu nome na capa do meu Alcorão!
E todos os dias, no silêncio da prece,
A saudade vem, como o tigre dos juncais,
Bramir no fundo de meu coração.
Es-san-aleija!
A minha promessa, ó beduína!,
Não foi escrita na areia incerta do deserto.
Por isso, é que verás o teu nome
repetido em todas as páginas deste livro.
Só Allah sabe a verdade! Uassalã!

Oásis de Halib, 1 da lua de Rabiah de 1904





Alex Sakai
Outubro 2009